ONZE FITAS
(Fatima Guedes)

Por engano, vingança ou cortesia
tava lá morto e posto um desregrado,
onze tiros fizeram a avaria
e o morto já tava conformado.

Onze tiros no morto e pra que tantos,
esses tempos não tão pra ninharia,
não fosse a vez daquele um outro ia.

Deus o livre morresse assassinado,
pro seu santo não era um qualquer um,
três dias num terreno abandonado
ostentando onze fitas de Ogum.

Quantas vezes se leu só nesta semana
e essa história contada assim por cima.
A verdade não rima,
a verdade não rima,
a verdade não rima...


Gilson Peranzzeta: arranjo e regência
Alemão: violão de 12
Luizão: baixo
Brás Limonji: oboé
Gilson Peranzzeta: acordeom
João Cortez: efeitos

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ESSE SOL
(Fatima Guedes)

Onde começa a comida e
termina o miserê?
Onde começa esse sol, onde acaba
esse dia comprido?
Tem tanto tempo que eu falo
que vou vencer...

E eu, o que é que eu vou fazer
com esse meu filho doente,
pronto pra morrer?
Ver minha mulher chorando, cabeça
encostada no fogão,
tanto maltrato envelhece seu
rosto de carvão.

Ela faz prece, faz chá de folha de saião,
ela jura que o menino vinga, mas
não vinga, não.
Vendo meu filho num canto escuro
tanto me dói esse seu gemido,
parte, me toca, me rasga meu
peito de marido.


Gilson Peranzzeta: arranjo e regência
Alemão: violão de 12
Luizão: baixo
Brás Limonji: oboé
Gilson Peranzzeta: acordeom
João Cortez: efeitos

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PREVISÃO
(Fatima Guedes)

Quem sabe você volta quando
estiver de porre,
do mesmo jeito que chegou
parando o meu corre-corre.
Da mesma forma me abraça, tonto,
ébrio de louco de amor, deitando por cima
de mim como quem agoniza e morre.

Quem sabe você se levanta de manhã
passado o fogo,
dizendo que acabou o álcool,

mas não acabou o jogo.
Pedindo pra voltar pra mim,

pro meu colo, pro meu calor,
com aquela humildade de quem

já se acha superior.

Você é quem bebe e eu que
fico embriagada,
você é quem volta e eu que
fico apaixonada.

Se dorme na minha cama e toma
do meu café,
de manhã, cadê meu pudor, amor
cara lavada.
Então, eu me pulo de novo pra
vida com você,
perdôo, eu não tinha mesmo mais
nada que fazer.
Meu coração é um bicho bobo
e acostumou com esse descaso,
e tudo se prepara pra outra vez acontecer.


Gilson Peranzzeta: arranjo e regência
Oscar Castro Neves: violão
Gilson Peranzzeta: teclados
Luizão: baixo
João Cortez: bateria
Ricardo Ponte: flauta

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MENINAS DA CIDADE
(Fatima Guedes)

São doze pancadas (doze badaladas),
sol a pino, a telha vã
esquenta o pó da minha casa,
esquenta a bilha d´água,
de tanto que ferve na minha mão
agulha e pano, armas de todo dia.
Na minha mão tesoura e fé,
e pé na mesma tábua em falso
(destino e pé descalço).
Desde manhã sentada e presa aqui
rasgando as sedas das rainhas,
os brancos das donzelas,
que no escuro da cidade alguém
há de despir.
Ninguém verá tão belas,
filhas da falsidade.
A vila é tão pequena e infeliz sem elas que...
Que são doze pancadas, são doze ruelas,
que desgraçadamente sempre vão dar
numa mesma praça seca,
de noite suspirada.
De noite, tão imensamente farta

das paixões do dia.
De noite, suficientemente larga

pras bandalharias.
Meninas que se vem chegando aqui
cinturas ainda finas, medir felicidade.
No rosto a marca dos batons
das senhoras de bem,
as damas da cidade.
No peito arfante o roxo das mordidas
mais ferozes,
filhos da mesma terra, andantes e viajores,
rapazes e senhores de mais realidade.
São doze pancadas (já são doze dadas),
A lua a pino e eu já sei
que vou entrar na madrugada
rematando bainhas,
pregando rendas que amanhã vai ser
o baile das rainhas.
Amanhã, já se sabe que elas vão fazer
a história da cidade,
são muito cinderelas.


Gilson Peranzzeta: arranjo e regência
Alemão: violão de 12
Gilson Peranzzeta: teclados
Luizão: baixo
Ed Maciel: trombone
Ricardo Ponte: sax-soprano

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CARA A MÁSCARA
(Fatima Guedes)

Se alimenta do meu medo,
respira do meu pavor,
pois que no fundo tem medo
da extensão da minha dor.
Corpo a corpanzil se mostra e ri,
e gosta do meu estado de abandono,
cara a máscara me enfrenta
com vantagens de meu dono.
Grande guardador que é,
grande senhor, grande senhor,
um dia esse seu vozeirão
já não me causa mais temor.
Um dia eu abro essa porta
e meu diabo te atenta,
e a minha faca te entra,
e a minha raiva te corta...
E há de cair coisa morta
sangue e sangue e alegria,
meu medo longe da porta
justificando a histeria.


Gilson Peranzzeta: piano

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CACHORRO MAGRO
(Fatima Guedes)

Às vezes, quem manda é ela
quando ele fica exposto,
quando ele briga com ela
e não levanta o rosto.
Se ele briga tonteado
e acaba aos cuidados dela,
e ela não sai do seu lado,
ele ainda que humilhado
não chora no peito dela.
Tal e qual cachorro magro
ronda ela na cozinha,
ela bota a mesa toda
e ele não pede a farinha.
Senta no sofá pra ler
notícia boba em voz alta,
quando não fica engasgado
num recado de vizinha.
Tantas noites sem paixão
que não se abusam malícias,
ele volta pro sofá
tenta de novo as notícias,
tenta um disco na vitrola
que nem chega no refrão,
mas pedir perdão...
Nas vezes que manda ela
o pai não gaba o gosto,
mas se ele briga com ela
e não levanta o rosto...
Cachorro que ronda ela,
olhar de fome e mazela.
E ela não sai do seu lado,
e ele ´inda um pouco zangado
perdoa a sua cadela.


Gilson Peranzzeta: arranjo, regência e teclados
Hélio Delmiro: guitarra
Luizão: baixo
João Cortez: bateria

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FULANO, BELTRANO E SICRANO
(Fatima Guedes)

Taí,
uma mulher com pecados,
habilmente dividida.
Três homens no meu caminho,
três caminhos sem saída:
o Fulano é meu amigo,
o Beltrano é meu marido,
o Sicrano é meu amor,
e a briga cá é comigo,
eu é que sei...

Teve de ser com Fulano
de quem eu sou a pela fraca,
a amante mais devassa,
seu estopim de desgraça,
de encontros em pleno dia
e o medo que ele me passa,
e a pressa que ele me passa,
eu sei que se ele me aperta
sente em meio seio a fogaça.
Eu sou mil vezes melhor
embora ele adore a outra,
Fulano me deixa louca...

Beltrano me quis primeiro,
arrebatou-me princesa,
viril, forte e cavalheiro
elogiou minha beleza.
E Beltrano me escolheu
pra ser o que há de mais seu,
a mãe de seus garotinhos,
todos de olhos tranqüilos,
seus filhinhos, meus filhinhos.
Beltrano é o que há de mais puro...

Mas Sicrano ainda me olha
com tanto apego,
gosta e não gosta de estar comigo.
Sente no meu respirar
uma nota de perigo,
me tira e me pôe nos seus planos,
Sicrano vai nisso há anos.
Ele sabe que minha vontade é ele
e me deixa esperar por de repente,
Sicrano me pôe doente...

O Fulano é meu amigo,
o Beltrano é meu marido,
o Sicrano é meu amor,
e a briga cá é comigo,
eu é que sei...

Oscar Castro Neves: arranjo, regência e violão
Gilson Peranzzeta: teclados

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PASSIONAL
(Fatima Guedes)

Já vai embora,
não diga adeus toda hora,
diga só um que tente cortar
esse meu ar de sua senhora,

insuportavelmente um ar que te explora.
Não morra de pena de mim,
o que eu sinto
é coisa que passa e não mora.

Seja feliz pela vida,
pra mim é questão de tempo ou bebida,
pode ser de tempo ou ser de temporal,
daquele que arrasa e que a tudo faz mal,

depois tudo fica igual.
Esqueça meu pranto
e meu rosto arrastando
esse amargo terror passional.

Veja meu caro,
nosso amor não foi nada de raro,
teve um magro final,
o fim de toda trama
que começa na cama
e termina metade carnal.

Já vai embora,
me deixe sozinha agora
que eu quero me despentear e me desesperar
pela casa afora,

sumir no rubor de quem chora,
clamar a explosão do desgosto
e acabar com esse meu ar
de sua senhora.


Oscar Castro Neves: arranjo, regência e violão
Gilson Peranzzeta: teclados
Luizão: baixo
João Cortez: bateria

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MADAME
(Fatima Guedes)

E então, taí uma canção
na qual você se reconhece
e eu quero ver ciúme
nessa tal que te merece.
Não seja uma canção de amor
mas traia mágoa.
Madame, o seu marido fez
essa mulher chorar amargo,
pensar em suicídio
quando ia em dezessete,
e ainda o cheiro dele
no meu ódio se intromete.
Eu sei que ele me lembra à revelia,
mas não lhe contaria o que não lhe interessa.
E tudo aquilo que ele me ensinou
e eu aprendi depressa, tudo por amor,
foi junto com o vexame, fascinação do exame
de um primeiro professor.
Madame, jamais me arrependi
de ter amado o seu marido,
de um tempo em que ele era
ainda galante e já bandido,
ciúme vem de mim que fui
romance de segunda.


Oscar Castro Neves: arranjo, regência e violão
Gilson Peranzzeta: teclados
Luizão: baixo
João Cortez: bateria

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NOTÍCIAS DE MIM
(Fatima Guedes)

Procurando por mim...
eu já soube porque,
ironia pra quem jurou me esquecer.
Eu estou muito bem pra quem me quer bem,
'inda apenas um pouco pior pra você.

Quer notícias de mim...
não se faça de bom,
que eu já soube de tudo pelo garçom,
indiscreto e cruel ele sempre foi,
arremedo fiel desse pobre nós dois.

Ensaiei te matar bem aqui no Leblon,
há que pôr tanta raiva em dia,
mas o coração não me crê
e ele mesmo improvisa, negocia.

Quer notícias de mim...
eu já soube porque,
quer a prova de que nada é irreparável,
me procure que eu dou esse tal de amigável,
sempre assinei por cima do meu querer, é...

Ensaiei te matar bem aqui no Leblon...

Oscar Castro Neves: arranjo, regência e violão
Gilson Peranzzeta: teclados
Luizão: baixo
João Cortez: bateria

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TEXTO DA CONTRA-CAPA
Essa garota
dentro da qual dorme e floresce
mulheres as mais luminosas se chama
Fatima, Fátima Guedes. Bom,
acho que todo mundo sabe (ou devia
saber, ou deveria) que as coisas não
nascem feitas. E como todas as coias,
o trabalho de Fátima Gudes vem se
acumulando no decorrer inédito dos
anos passados.
Aquele trabalho, às vezes
solitário, de madrugada, no quarto:
as vezes inquietante, de quem capta e
decapta o sentimento, e às vezes medroso.
Mas um trabalho invariavelmente feito com prazer e dor,
feito um parto, transformando o solitário em solidário,
refazendo o sentimento,
curtindo o medo, transando com ele.
Foi desse jeito, acho eu, que ela
chegou à Odeon e agora chega a você,
que é o público.
Fatima Guedes, no dizer do poeta impublicado,
torna público o que do público foi retirado:
a matéria, viva da física de sua música, com leveza, com início, com calor.
No mais, vamos ouvir um pouco a nós próprios: você, eu, ela...
Ar

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Ficha Técnica

 

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