MAIS UMA BOCA
(Fatima Guedes)

Quem de vocês se chama João?
Eu vim avisar, a mulher dele deu a luz
sozinha no barracão.
E bem antes que a dona adormecesse
o cansaço do seu menino,
pediu que avisasse a um João
que bebe nesse bar,
me disse que aqui é que ele se embriaga.

Quem de vocês se chama esse pai
que faz que não me escuta?
É o pai de mais uma boca,
o pai de mais uma boca.
Vai correndo ver como ela está feia,
vai ver como está cansada
e teve o seu filho sozinha sem chorar, porque
a dor maior o futuro é quem vai dar,
a dor maior o futuro é quem vai dar.

E pode tratar de ir subindo o morro,
que se ela não teve socorro
quem sabe a sua presença
devolve à dona uma ponta de esperança.
Reze a Deus pelo bem dessa criança,
pra que ela não acabe como os outros,
pra que ela não acabe como todos,
pra que ela não acabe como os meus.

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ALDEIA MODELO
(Fatima Guedes)

Eles viram nossa face macilenta,
nossa barriga impaluda,
mas nada disseram, nada
porque era caluda.

Eles viram nossas casas de barro e palha
como na intenção de abrigo,
mas não se fizeram entrar
pois que havia perigo.

Eles viram a nossa comida
por nossas mãos do chão arrancada,
de nossas mãos por outras arrancada
e não comeram nada.

Não puseram nossas vestimentas
poeiradas, mal cheirosas
e acharam feias nossas mulheres
magras, mas corajosas.

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TRASTE
(Fatima Guedes)

Ele já chega morto
de corpo, de alma ausente.
Esquece em algum bolso
um beijo que me alimente.

Ele se acha um traste
e embora não reclame
do seu ordenado,
não diz quanto ganha,
fica envergonhado.
Eu sei pelo tão pouco que ele dá pra mim

Janta do que tiver
e vai dormir com fome.
Eu sou uma mulher
amiga de meu homem.

Eu deito do seu lado
e embora ainda fique
com o corpo em brasa
ele já chega morto
de corpo em casa
e guarda sua alma
em algum bolso à toa.

Ele pegou no sono
antes de mim, como sempre.
Eu fico a rolar na cama insone, cansada.
Como mulher infeliz
como gente revoltada.

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O BLOCO DAS MIMOSAS BORBOLETAS
(Fatima Guedes)

O Bloco das Mimosas Borboletas
saía todo ano com as suas meninas,
dançando em cima de um carrossel alugado
e todo decorado com serpentinas,
era um lindo bloco de solteiras.

Voavam baixo as mimosas borboletas
seguidas bem de perto por suas famílias,
que atentas agitavam suas ventarolas
espantando o calor, protegendo as filhas
das malandragens e galanterias.

E num sábado de carnaval duas mimosas irmãs,
que borboleteavam discretas e prosas pros fãs,
desapareceram sem menos, sem mais,
deixando o grupo pra trás,
sumindo no carnaval da vida.

De uma delas até hoje não se sabe
e a outra apareceu depois na quarta-feira,
pra apanhar suas roupas se dizer sentida
e de fato estava um pouco abatida,
depois foi-se embora de automóvel.

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PALADAR
(Fatima Guedes)

Onde foi que você
perdeu sua crítica, o seu paladar?
Como foi, porque foi
que não soube me amar
quando eu estava perto?

O amor
morre de cansaço
e renasce um carinho,
do seu ressentimento
de ainda estar sozinho,
mas não se engane
não chame despeito de saudade.

Você não perdeu
nem um pouco o costume
de me incomodar,
me tirar do sossego
pra eu admirar sua infelicidade.
E logo agora
que eu aprendi
a conviver com a minha,
eu já morei com o medo
de acabar sozinha
e agora você pede pra voltar,
me humilha mais uma vez,

pensa que eu vou voltar,
me humilha.
Por que será que o amor
se considera imune?

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DANCING CASSINO
(Fatima Guedes)

Eu cumpro um destino,
ele me tirou do dancing cassino,
rasgou meu cartão, me puxou pelo braço
e era a paixão dele contra o meu cansaço.

Eu não gosto dele,
quando ele me olha eu fico gelada,
eu tenho que dar uma paga pesada
pela caridade, pela moradia,
e a vida decente de uma alvenaria,
de não precisar dormir durante o dia.

Eu não me acostumo,
ele chega às sete e às nove eu me arrumo.
Quando ele me vê limpa, desaparece,
o medo de que eu já o tenha enganado.
Respira por mim, me despe afobado,

e ele se escorrega de mim saciado,
e eu sinto uma angústia, um pavor dobrado
quando ele me toca uma segunda vez.
Talvez ele tenha sido um mau freguês,
talvez eu não valha uma briga num dancing.

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CONDENADOS
(Fatima Guedes)

Ah, meu amor, estamos condenados,
nós já podemos dizer que somos um.
Nós somos um
e nessa fase do amor em que se é um
é que perdemos a metade cada um.

Ah, meu amor, estamos mais safados,
hoje tiramos mais proveito do prazer.
E somos um
quando dormimos juntos sonhos separados,
que nós não vamos confessar de modo algum.

Ah, meu amor... ah, meu amor...
quantas pequenas traições,
pobres mentiras diplomáticas
de puras intenções (estamos condenados).

Ah, meu amor, de discretos pecados
formamos esse ser tão uno, divisível.
Parece incrível
que nós tentemos que ele dure eternamente
nessas metades incompletas,

mas decentes.

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CHEIRO DE MATO
(Fatima Guedes)

Ai, ai, o mato, o cheiro, o céu
o rouxinol no meio do Brasil.
O uirapuru canta pra mim
e eu sou feliz só por poder ser,
só por ser de manhã,

manhã, manhã, manhã, manhã
nessa clareira o sol

se despe feito brincadeira,
envolvendo quente a todo ser vivente,
taperebá, canela-tapinhoã...

Nanã, nanã, nanã, nanã
não faço nada que perturbe
a doida, a louca passarada
ou iniba qualquer planta dormideira,
ou assuste as guaribas na aroeira.

Em contraponto com pardais urbanos
tão felizes, soltos, dentro dos meus planos,
mas boquiabertos que os meus vinte anos
indóceis e livres como eu.

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TANTO QUE APRENDI DE AMOR
(Fatima Guedes)

Tanto que aprendi de amor na vida e
agora descobri
que não sei nada mais.

Força eu fiz pra ter
com esse rapaz
só boa companhia,
hoje eu gosto demais.

Sabe que até falta ele me faz,
sabe que eu tentei não compreender
e dei pra relembrar as coisas más
pra esquecer.

Tanto que aprendi de amor,
tanto e daí,
na hora de fugir
não me senti capaz.

Quero o que me sobra dele em mim,
a boa companhia,
a vida que ele traz.
Força eu fiz, mas já não faço mais,

sei onde me leva essa ilusão,

mas não amar também me tira a paz

e a emoção.

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DOR MEDONHA
(Fatima Guedes)

Triste do amor que acaba
do jeito que o nosso acabou.
Triste do amor que termina
com o mesmo mal-estar.
E deixa no seu rastro
uma saudade sem-vergonha,
um imenso vazio, uma fome imensa
e uma dor medonha.
Triste do amor que teima
em soluções muito definitivas.
Que sensação de fracasso
depois de tantas tentativas,
pra recuperar
um velho entusiasmo
que foi afundando, dia menos dia,
e sumiu no marasmo.
O que fica pra nós disso tudo
é um acordo inconformado.
Nós que agimos do modo que achamos
mais civilizado.
Dói saber que apesar de já ter sido bom
fica a impressão de muito tempo perdido.
Dói saber que se a gente se vir na rua
vai se sentir inibido.

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MÚSICOS
Gilson Peranzzeta: piano acústico e piano elétrico;
Eduardo Souto Neto: piano elétrico
; Ary Passarollo: viola de 12
; Hélio Delmiro: violão e guitarra
; Fernando Leporace e Sizão: baixo;
Pascoal e Paulinho Braga: bateria;
Ricardo Ponte: sax-alto, sax-soprano e flautas
; Jorginho: sax-alto;
Mauro Senise: sax-alto;
Niltinho: flautas, flugel-horn, piston e trompete
; Jayme: clarinete
; Swab e Toninho: trompas;
Ed Maciel: trombone
; Marizinha, Regina, Solange e Vivian: coro;
Pareschi (spalla), Vidal, Marcello, José Alves, Aizik, Walter Hack,
Carlos Eduardo, Paschoal Pessotta, José Hana, Virgílio Amaes e Daltro: violinos
; Penteado, Macedo e Stephany: violas;
Márcio, Yura e Watson: cellos

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Ficha Técnica

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