SÉTIMA ARTE
(Fatima Guedes)

Abre-se o veludo da cortina,
um sonho começa a me levitar,
me leva até a sua mágica janela
e acontece que reacontecerá.

Todos os lugares por onde andei
e as pessoas por quem me apaixonei
giram, giram, assim em mim, e à minha volta,
o cenário, o beijo, o homem e a loura.

Tudo isso é demais pro meu coração
tanta luz, tanto sonho, outra dimensão.
Meus deuses, minhas deusas
dos irreais momentos,
são reais se são os meus sentimentos.


Gilson Peranzzetta: piano e teclados
Arthur Maia: baixo
Téo Lima: bateria

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MINHA NUDEZ
(Fatima Guedes)

Às vezes é como se um vento
soprasse aqui dentro de mim,
uma corrente de ar,
uma brisa interior.

Como o vento do metrô
suspende a saia da Marylin,
eu também fico assim,
refrescada.

Eu gosto de saborear meu escândalo,
é minha vez, é minha nudez,
sou eu.

Preciso de vento e de sonho
pra que eu me sinta real,
pra que eu me sinta mais
desejada.

Eu quero é que o vento
e que todos os ventos que moram em mim
deixem minha alma
despenteada.


Paulinho Braga: bateria
Victor Biglione: guitarra

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FILM NOIR
(Fatima Guedes)

Meu amor, meu bem, meu protetor,
que braços você tem,
que corpo de herói,
cabeça de neném.

Meu amor, seus braços vão servir
pra eu desmaiar num "oh...",
pegar um marginal
firme pelo gogó.

Quando o diretor fizer... assim
(ele mandou você olhar pra mim).
Recosta a meu lado num sofá
azul, azul capitoné,
Eu saio e preparo o seu café,
eu volto e me entrego pra você.

Eu era a sua única pista.
Anjo ou vigarista?
Traiçoeira, sim,
você procurou por mim
o filme inteiro.
Fui eu mesma quem
planejou tudo.
Ah, meu inspetor
da Scotland Yard.

Meu amor, meu bem, meu repressor,
me bota no xadrez.
Paga a fiança
e eu saio dentro de um mês.

Meu amor, fui má, pequei, dancei.
Suspensa a sentença,
juro, meu inspetor,
que o crime compensa.

Meu amor, meu homem, minha lei,
diz que me adora.
Eu digo o que sei.


Gilson Peranzzetta: piano
Arthur Maia: baixo
Música incidental: "Laura"

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MANSÃO DO TERROR
(Fatima Guedes)

Tô encurralada aqui e morta de medo.
Ele tá me olhando e eu fico paralisada.
E agora?
Tá passando a língua nos dentes
e vem se aproximando, vem chegando,
chegando, chegando...

E eu quero gritar, nada me sai da garganta.
Ele olha o meu pescoço com uma cara de fome.
E agora?
Se eu correr ele me pega,
se eu ficar ele me come,
me come, me come, me come...

E então entendi
a total solidão
do vampiro e aí
larguei meu coração.
Com ele me casei
na mansão do terror.
E hoje eu preciso
tanto do sangue dele
e ele do meu amor.


Gilson Peranzzetta: piano e teclados
Arthur Maia: baixo
Téo Lima: bateria
Victor Biglione: guitarra base e guitarra solo
Zé Nogueira: sax-alto
Léo Gandelman: sax-tenor
Henrique Cunha: trompete
Efeitos: Charles, Frank, Gilson e Paulinho

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OS AMORES QUE EU NÃO TIVE
(Fatima Guedes)

Os amores que eu não tive
estão me atormentando agora.
Como eu fui perder fulano,
porque beltrano foi embora?
Um fantasma que eu não vi
se ri de mim hoje em dia,
pelos cantos
da minha casa vazia.

Os amores que eu não tive
ainda estão mandando flores,
flores que eu não sinto o cheiro
na ausência desses amores.
Cada um fez o que quis
da sua vida e agora?
Perdi fulano,
beltrano foi embora.

Assim passei por eles passaram por mim.
E por certo não vão poder voltar do fim,
pois não sei o que perdi
e não sei quando,
e por que a vida segue
me empurrando,
zombando dos amores que não tive.

Os amores que eu não tive
esse medo que me assalta,
como eu fui perder fulano,
porque beltrano me faz falta.
Cada um fez o que quis
da sua vida e agora?
Perdi fulano,
beltrano foi embora.


Gilson Peranzzetta: piano e teclados
Luizão: baixo
Paulinho Braga: bateria
Claudio Jorge: violão
Victor Biglione: guitarra
Henrique Cunha: flugelhorn (solo)

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UM SONHO
(Fatima Guedes)

Senti calor de luzes,
ouvi aplausos,
nasci estrela.
Parece um sonho,
um sonho.

Ao som de tantas vozes
nasci estrela
estonteada.
Estonteante,
vibrante.

Vivendo
a flor de cada momento novo.
Ah, se eu soubesse,
soubesse
que a flor no sonho
dura o tempo do sonho
e mais nada.

Ela, a deusa, a musa
está sozinha
com medo de ir
ficando louca,
louca.

Fausto de saia justa,
perdido o corpo,
perdida a alma,
perdeu seu sono,
seu sono.

Que era
quase o último refúgio
feito uma morte benvinda
Benvinda.
Venha se esconder
de tantos olhares, ah...


Gilson Peranzzetta: piano e teclados
Arthur Maia: baixo
João Cortez: bateria
Victor Biglione: guitarra
Zé Nogueira: sax-soprano (solo)
Participação especial: Cláudio Zoli,
gentilmente cedido pela RCA

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NATUREZA MORTA
(Fatima Guedes)

O artista mordeu a maçã
que não consegiu pintar,
seria uma natureza morta.
O artista irritou-se
arrumando as frutas na bandeja
e olhava, e olhava, e olhava
pra fruta torta.

Quem criou a maçã
e o pecado de pintá-la,
quem criou a ilusão de recriá-la
em pura perfeição?
O esteta se desesperou.
Poeta de simetria,
devorou aquilo que eternizaria.

O artista uma vez fez amor
com um modelo vivo.
Queria pintar e acabou
esquecendo o motivo.
O artista irritou-se
consigo e com tudo mais a ver,
com a pose
e com a luz errada do atelier.

Quem criou o amor
e o pecado da beleza
foi essa indisciplina da natureza.
Isso mortificou
o esteta, se desesperou.
Poeta de simetria,
devorou aquilo que eternizaria.


Gilson Peranzzetta: piano e teclados
Luizão: baixo
Paulinho Braga: bateria
Victor Biglione: guitarra
Armando Marçal: cuíca, tamborins e congas
Zé Nogueira: sax-alto
Léo Gandelman: sax-tenor
Henrique Cunha: trompete
Palmas: Fatima Guedes, Gilson Peranzzetta e Armando Marçal

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NÃO TE AMO MAIS
(Filó e Fatima Guedes)

Será que o tempo se apaga,
será que é pedir demais,
será que o tempo cura
o que o próprio tempo faz?

Eu vou deixar de te amar
e aí vou ver quanto amei.
Me esqueça, não me esqueça,
eu nunca te esquecerei

Será que o tempo clareia
os vícios dessa paixão?
Será que ele me abandona
às portas da solidão?

Um dia, se Deus quiser,
não vou te ver nunca mais.
Te amo, não te amo,
amo, não te amo mais.

Será que o tempo passando
reúne o que se rompeu?
Eu quero que ele morra,
que sofra bem mais que eu.

Será que ele quer voltar,
será que ainda vou ter paz?
Te amo, não te amo,
amo, não te amo mais.


Gilson Peranzzetta: piano e teclados
Luizão: baixo
Paulinho Braga: bateria
Victor Biglione: guitarras
Música incidental: "As time goes by"

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FÉRIAS EM ACAPULCO
(Fatima Guedes)

Em Acapulco
quem sabe eu conheço
uma americana,
boa pessoa,
boa de cama.

Se ela for rica
me leva correndo
pra Martinica,
me paga em dólar,
diz que me ama.

E eu vou passar o verão
numa praia do Havaí,
vou pro Tahiti,
vou pra Bahamas.
Essas senhoras
de muito romance e muita idade
são tão ricas e
são bem sacanas.

Eu peço um suco
e ela vai pra cabine
porque se enjoa.
Vim de Miami,
vou pra Samoa.

E no convés
eu encontro com a moça
da minha vida,
só de biquini
(Ah, minha querida!)

E eu levo um papo
e ela diz que morou
no Guayaquiqui,
mas que frenesi,
coisa bacana...
e a velha sai
da cabine e me flagra
com a moça... ih!
me largou aqui:
Copacabana.


Gilson Peranzzetta: piano e teclados
Arthur Maia: baixo
Téo Lima: bateria, timbales
Victor Biglione: guitarras
Armando Marçal: congas, bongô, guiro, claves e cincerro
Zé Nogueira: sax-alto
Léo Gandelman: sax-tenor
Henrique Cunha: trompete

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CRIATURA
(Fatima Guedes)

Meu pai, acho que a sua criatura
saiu da escuridão segura
pra luz de alguma experiência errada.
Mais nada.
Cobri minha pele costurada
e a alma ainda alinhavada
e fui andar pela cidade.
A pura verdade
é que nasci com esse tamanho,
de algum sopro de vida estranho.
Que temporal, que ventania,
que raios, que dia!
Meu criador enraivecido
olhou pro seu recém-nascido
e acho que fugiu de medo.

Meu pai, não me abandone agora,
foi o que pensei na hora,
mas não pensei com palavras,
porque as palavras,
outra espécie de vazio,
não me vestiam quando eu sentia frio.
Meu pai, aprendendo e apanhando,
o tempo inteiro buscando
compreender sua intenção.
Eu me danei feito um bicho na cidade,
minha vontade soube me dar a mão.

O fogo das minhas poucas descobertas
na areia das mil coisas certas
se acende ainda em mil perguntas,
fagulhas que juntas
vem a ser minha alma infame.
Talvez meu criador me ame,
talvez meu criador me ame,
talvez...


Gilson Peranzzetta: piano e teclados
Luizão: baixo
Claudio Jorge: violão
Armando Marçal: surdo, tamborim e ganzá

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Ficha Técnica


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