MINHA NOSSA SENHORA
(Fatima Guedes)
Que que é isso que se costura
na minha alma
doce sutura, futura calma
que a prece alcança na paz de Deus.
E até mesmo se há alguém que pense
que a morte é sonho,
melhor viver nessa vida um sonho
que eu possa ver pelos olhos teus.
Pois sabendo que um dia é sempre
chegada a hora,
eu peço, oh Minha Nossa Senhora,
que estenda a mão sobre o meu país.
Quem te implora é outra Maria,
a Maria qualquer, a Maria aprendiz.
Eu também quero ser
- quem não quer? -
quero ser feliz.
Lula Galvão: violão e arranjo base
Jorge Helder: baixo acústico
Cordas: Cia das Cordas*
Leandro Braga: arranjo de cordass
O DIA EM QUE FAREMOS CONTATO
(Lenine e Bráulio Tavares)
A nave quando desceu, desceu no morro
ficou da meia-noite ao meio-dia,
saiu e deixou uma gente
tão igual e diferente,
falava e todo mundo entendia.
Os homens se perguntaram
por que não desembarcaram
em São paulo, em Brasília ou em Natal.
Vieram pedir socorro,
pois quem mora lá no morro
vive perto do espaço sideral.
Pois em toda a Via Láctea
não existe um só planeta
igual a esse daqui.
A galáxia tá em guerra,
paz só existe na Terra,
a paz começou aqui.
Sete artes e dez mandamentos
só tem aqui,
cinco sentidos, terra, mar, firmamento,
só tem aqui
essa coisa de riso e de festa,
só tem aqui,
Baticum ziriguidum, 2001,
só tem aqui.
A nave estremeceu, subiu de novo
deixou um rastro de luz no meio-dia.
Entrou de volta nas trevas,
foi buscar futuras levas
pra conhecer o amor e a alegria.
A nave quando desceu, desceu no morro,
cheia de ET vestido de orixá,
vieram pedir socorro
e se derem vez ao morro
todo o Universo vai sambar.
Lenine: violão e arranjo base
João Lyra: violão
Bororó: baixo elétrico
Armando Marçal: percussão
Trambique: percussão
Jaguara: percussão
Ovídio Brito: percussão
Côro: Arranco de Varsóvia
(Paulinho Malaguti, Rita Peixoto, Muri Costa, Soraya Ravenle e Eveline Hecker)
Arranjo vocal: Paulinho Malaguti
MÃOS DE JARDINEIRO
(Luiz Avellar e Fatima Guedes)
O que eu sabia de amor até hoje
era apenas a falta que o amor me fazia.
Vida, esse fogo de vida,
e um calor na mão fria.
Tanto tempo esquecida de mim,
feito uma flor miúda num canto do jardim,
esperando um olhar, um carinho, um cuidado.
Esperei por alguém,
alguém como você do meu lado.
O que eu sabia de amor até hoje
era amor pelo avesso, começo do fim.
Foi tudo o que eu pude aprender
no abandono de mim.
E você, com mãos de jardineiro,
tenta reviver essa flor esquecida.
Jardineiro de mim,
que me sopra nos lábios
um pouco da sua vida.
Hélio Delmiro: violão
GRANDE TEMPO
(Fatima Guedes)
Grande tempo, grande tempo
zum, zum, zum, zum de neon.
No princípio o verbo era
e a própria luz vem do som.
Oh, grande tempo,
eu tenho amor pela arte
se ela está dentro de mim,
me lança nos teus braços
e assim vou contigo
à toda parte.
Grande tempo, grande tempo
esses caminhos são meus,
todas as ciências juntas
beijam as saias de Deus.
Oh, grande tempo,
o que é meu está guardado,
não está grudado no céu
nem colado no futuro,
só sei que contigo está seguro.
Billy Teixeiro: violão e arranjo de base
Bororó: baixo elétrico
Carlos Malta: flautas
Marcos Suzano: percussão
O CÔCO DO CÔCO
(Guinga e Aldir Banc)
Moça donzela não arrenega um bom côco,
nem a mãe dela, nem as tia, nem a madrinha.
Num côco tô com quem faz muito e acha pouco,
em rala-rala é que se educa a molhadinha.
Se tu não peca meu bem,
cai a peteca neném,
vira polícia da xereca da vizinha.
Se tu se guarda e não tem
tá encruada que nem
ovo no cu da galinha.
Não tem cinismo quem diz
entre a santa e a meretriz,
só muda a forma com que as duas se arreganha.
Eu só me queixo se criar teia de aranha,
quem nega, ou tá de manha
ou faz pouco que gozou.
No tempo em que eu casei de véu com meu marido
eu era virgem do ouvido e ele nunca reclamou,
pra ser sincera eu acho
que isso inté facilitou.
Moça...
Guinga: violão
Lula Galvão: violão e cavaquinho
Carlos Malta: piccolo
Marcos Suzano: percussão
SÓ DÓI QUANDO EU RIO
(Moacyr Luz e Aldir Blanc)
Só fico à vontade
na minha cidade.
Volto sempre a ela,
feito criminosa.
Doce e dolorosa,
a minha história escorre aqui.
Há quem não se importe
mas a Zona Norte
é feito cigana
lendo a minha sorte:
sempre que nos vemos
ela diz quanto eu sofri.
E Copacabana,
a linda meretriz-princesa,
loura Mãe de Santo
com sua gargantilha acesa.
Ela me ensinou pureza e pecado,
a respiração do mar revoltado.
Rio de Janeiro, favelas no coração.
Moacyr Luz: violão e arranjo de base
Adriano Giffoni: baixo acústico
Marcio Malard: cello
David Chew: cello
Gilson Peranzzetta: arranjo de cordas
LUA BRASILEIRA
(Fatima Guedes)
Lua brasileira,
surgindo deslumbrante na floresta,
toda verde prata.
Luz de festa, mãe da mata.
Lua delicada,
pelos mares do Atlântico passeia,
branca lua cheia.
Noite alta, madrugada.
Linda,
por entre os edifícios brilha a lua
uma em cada rua,
lua feiticeira,
surpreendente,
a cada esquina
ela é feminina,
lua brasileira.
Claudio Jorge: violão e arranjo de base
Jorge Helder: baixo elétrico
Marcio Malard: cello
David Chew: cello
Vittor Santos: trombone
Trambique: percussão
Armando Marçal: percussão
Ovídio Brito: percussão
Jaguara: percussão
Gilson Peranzzetta: Arranjo de cordas
NAS NUVENS
(Fatima Guedes)
Chega de chorar sozinha
eu sou igual a todas as mulheres.
Eu posso resistir à tentação,
é só uma paixão.
Ninguém sabe.
Que eu sonho te encontrar um dia
passar a tarde em sua companhia
fazendo amor que nem onda do mar.
Onde é que eu vou parar?
Ninguém sabe.
Tem hora que eu penso
que vai valer a pena,
tem hora que eu sinto
que falta coragem.
Se eu dormir nas nuvens
e acordar serena.
E se outro amor me levar
pra outra viagem.
Billy Teixeira: violão e arranjo base
Zeca Winicki: baixo fretless
Rildo Hora: gaita
Cordas: Cia. das Cordas*
Leandro Braga: arranjo de cordass
A DOIS
(Sueli Costa e Ana Terra)
Mas de repente a luz,
a explosão me cega,
essa paixão me pega
e me reduz a dois.
Então já sei que é dor
rimando com amor.
Um anjo diz amém
e falta ar depois,
mas só seu nome é lindo
só seu corpo é bom.
O mundo, triste exílio,
não passa de um borrão.
Você é nitidez,
melhor obra de Deus.
Quem sabe Ele só quis
se ver com os olhos meus,
mas de repente a luz...
Marco Pereira: violão e arranjo de base
Victor Biglione: guitarra
Jorge Helder: baixo acústico
Marcos Suzano: percussão
ENLUARADA - pra Elizete
(Moacyr Luz e Aldir Blanc)
É tão divina essa hora
com a lua cobrindo o mar.
São dois amantes arfantes
querendo nos arrebatar.
Ao meu lado esses passos prosseguem
e talvez nunca haja outro encontro.
Ah, meus erros de amor não me neguem,
o meu peito está pronto.
Tonto foi meu coração
na ilusão de não sermos sós,
mas carreguei sobre os ombros
os amores de todos nós.
A saudade jorrou em torrentes
e o meu corpo não pode contê-la:
eram tantos na ânsia de luz
que eu virei uma estrela.
Com o tempo formei sociedade com a lua
quando um boêmio caia na rua,
já não sabia se o beijo era dela ou era o meu.
Se você acordar sem luar, sem abrigo,
é só lembrar desse momento antigo,
pois deixei minha voz misturada na espuma do mar...
pra enluarar.
Moacyr Luz: violão e arranjo de base
Adriano Giffoni: baixo acústico
Gilson Peranzzetta: acordeon e arranjo de cordas
Marcio Malard: cello
David Chew: cello
CAOS BRASIL
(Guinga, Aldir Blanc e Paulo Emilio)
Rumba com bumba-meu-boi,
Cuba com zabumba no carnaval:
princesas acesas dão pro Ganga Zumba no quintal
e Tiradentes traçou Portugal num canavial.
Pero Vaz Caminha pintou de rainha no Bolshoi,
Caramuru busca-pé de Paraguaçu lá pra Niterói.
Macumbas acesas no Outeiro das Glórias de jornal,
choram pingentes que caem dos trens no Brasil Central.
Cobras e lagartos desfilam na zona militar.
E um surfista inzoneiro de Ipanema
dá vinte facadas no ventre de Iracema...
Aí, Iemanjá envolve o corpo da virgem nas espumas do mar
e ninguém viu,
é o caos-Brasil...
Lula Galvão: violão e arranjo de base
Jorge Helder: baixo elétrico
Armando Marçal: percussão
Trambique: percussão
Jaguara: percussão
Ovídio Brito: percussão
SEM SAÍDA
(Fatima Guedes)
Fogo insidioso do destino
marca no meu corpo a sua trilha.
Quem ousa querer me amar assim
pra me fazer de ilha?
Como não sentir na pele a ardente
espada torturante do destino?
Amanhecerei eternamente
ao lado de um menino.
Escrava de uma dor
que eu não quero,
eu amo e o meu pavor é sincero,
no olho do destino severo
me vejo refletir.
Cavaleiro empunhando a espada
teu reino é a minha cama florada.
Deus queira que eu não queira mais nada,
não tenho aonde ir.
Claudio Jorge: violão e arranjo de base
Jorge Helder: baixo acústico
Marcio Malard: cello
David Chew: cello
Gilson Peranzzetta: arranjo de cordas
SAMBA DE UM BREQUE
(Guinga e Aldir Blanc)
Música pra mim
é feito o ar que eu sorvo,
a mão que eu movo
e o coração
na sístole e diástole,
é a prima e o bordão,
o traço de união que há
entre blues, Kalu,
a índia e o Caramuru.
O meu breque-blue
é assim uma startrek
no infinito de Bangu,
um beque de subúrbio
que surfasse em Honolulu,
um jegue que no Jockey Club
com freio nos dentes
derrotasse alazães.
Chuva nas manhãs
e a música soa:
no orfeão de rãs
solfeja a lagoa,
sola um sabiá,
modula a garoa,
lírios pedem bis.
E quem tem o dom,
pega no ar,
quem sai do tom,
deixa pra lá...
Música pra mim
é um grito de socorro,
se termina eu também morro.
Ela é my body and soul
e vem o corvo do Allan Poe
e prega um nevermore geral
- cinzas, Fênix
reciclando o meu carnaval.
Música pra mim
não é um megaevento,
é um pega-pra-capar,
questão de sentimento:
o afogado em pleno mar
que agarra a mão do vento e ri,
usa o sofrimento pra poder flutuar.
Maurício Carrilho: violão e arranjo
Guinga: violão
Pedro Amorim: bandolim
Paulo Sérgio Santos: sax-soprano e clarinete
Marcos Suzano: percussão
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ELE
(Fatima Guedes)
Eu pretendo não sofrer por amor,
eu sou tão feliz,
eu sou muito amada.
Olha a vida zombando de mim,
não quer dizer nada.
Já pensou sentir tudo outra vez,
aquele calor invadindo a alma,
se o fogo tomar conta de mim
só ele me acalma,
ele me acalma.
Marco Pereira: violão e arranjo de base
Victor Biglione: guitarra
Jorge Helder: baixo acústico
Armando Marçal: percussão